Edicões Gambiarra Profana/Folha Cultural Pataxó




"Minha Poesia não usa vestes para se camuflar, é livre e nua" (Arnoldo Pimentel)

"Censurar ninguém se atreverá, meu canto já nasceu livre" (Sérgio Salles-Oigers)

"Gambiarra Profana, poesia sem propriedade privada, livre como a vida, leve como pedra em passeata" (Fabiano Soares da Silva)

"Se eu matar todos os meus demônios, os anjos podem morrer também" (Tenneessee Williams)

domingo, 13 de maio de 2012

FANTASMA DENTRO DO ARMÁRIO


Este poema foi escrito em 1980, no final do mês de maio, num período morto de minha vida, pois estava com outros companheiros onde não queria estar, estava apenas por ter sido obrigado pelas leis brasileiras, que muitas vezes não respeitam o seu direito de escolha, e eu nunca quis olhar uma pessoa como um inimigo, seja de que país for, de que ideologia política for, de que religião for, nunca irei escolher estar numa guerra e matar semelhantes, de lá nem fotos eu guardei e a única coisa de bom que aconteceu foi ter feito amigos, em especial meu hoje irmão Cláudio Rangel, que foi quem me ensinou a escrever com liberdade, sem medo e com amor a arte, com meu irmão de coração aprendi a me sentir gente, a ser eu mesmo, aprendi a ser amigo e amar as pessoas como elas são.

FANTASMA DENTRO DO ARMÁRIO
Minha mãe vive falando
Que tem coisas que escrevo
Que são perigosas
Prefiro escrever assim
Que não escrever
É o que sei fazer

Tenho medo de mostrar
E deixar os poemas aqui
Sempre há revistas
E se acharem quando
Revistarem os armários
Estarei fodido

Por isso sempre levo pra casa
E escondo no meu quarto
No meu caderno dentro do armário
Lá ficam guardados
Tenho medo
Que minha mãe chore
Se acontecer algo comigo

Arnoldo Pimentel


Hoje dias das mães meus blogs terão publicados apenas poemas que escrevi no tempo em que ela estava entre nós, poemas antigos que fazem parte da minha história, minha mãe Helena que nos deixou em 1995 sempre leu meus trabalhos, desde que escrevia poemas tolos com 16 anos por ai.Saudades dela.Links abaixo, basta passar o mouse.



domingo, 6 de maio de 2012

MENINO E A KOMBI AZUL




A sala de aula estava silenciosa, os quase quarenta alunos que tinham entre 08 e 09 anos olhavam o coleguinha que estava no canto da sala, junto a porta, de frente para a parede, com as mãos tapando os olhos, que estavam fechados. A professora sentada à mesa olhava a frase que o menino escreveu em resposta a pergunta que estava no quadro:

“O que você pede a Deus quando reza na hora de dormir?”

A professora leu todas as outras respostas e todas eram parecidas, sonhos de crianças, mas a do menino que estava no castigo, de costa para a turma, de frente para a parede era uma afronta, um sonho que parecia impossível, ele poderia ter respondido até mesmo sobre futebol, meninos gostam de futebol e outros meninos responderam que queriam ver o Brasil ser tetra campeão, afinal o Brasil iria tentar o tetra na Alemanha, faltavam alguns meses para a copa, outros queriam que seu time fosse campeão, afinal estava no meio do campeonato, outros queriam ser felizes, agora ela pensaria em alguma coisa, ele levaria um 0 além do castigo. O menino abre os dedos e tenta olhar entre eles, mas só vê a parede, parece sentir a sala girar e os olhares dos colegas em sua direção, sentia o olhar da professora como um chicote açoitando seu corpo, sentia  tremores, sentia medo, o mesmo medo que o fez escrever aquela resposta e pedia a Deus, ali no seu canto ermo, que o livrasse dos medos. Bateu o sinal do recreio, a professora formou os alunos em fila e os liberou para o pátio da escola, menos o menino, chamou-o e mandou-o sentar.

- Você ficará sem recreio e nunca mais escreva uma resposta dessas, ouviu?
- Sim professora

Ela olhou novamente a resposta:
“Quero comprar balas na padaria sem ter que me esconder ou correr da Kombi azul.”

- Por que você escreveu isso? – Perguntou a professora
- Eu tenho medo da Kombi azul – Respondeu o menino
- Ela existe para proteger você, só recolhe quem está nas ruas à toa – Disse a professora.
- Eu tenho medo, ela é amiga dos homens verdes, que colocam pessoas de castigo, viradas pra parede, assim como fiquei ali no canto e depois leva as pessoas para longe - Respondeu o menino.
- Quem disse isso a você? –  Perguntou a professora.
- Minha mãe – Respondeu o menino abaixando os olhos.
- Pode ir para o recreio, e não faça mais isso.
O menino levantou e foi para o recreio. A professora abriu a gaveta, pegou a caixa de fósforos, acendeu um palito, uma lágrima nasceu em seus olhos e molhou a folha que era consumida lentamente pelo fogo. A professora murmurou baixinho só para si enquanto olhava a folha sendo lentamente consumida pelo fogo:
- Sem vida aparente a liberdade fica escondida em veredas do coração de quem a sente


Olhou para as janelas da sala de aula, seu pequeno mundo naquele momento e pensou em seus alunos, que ela tinha que ensinar, mas também proteger mesmo desprotegendo de alguma forma do mundo lá fora, pensou em seu pai que os homens verdes levaram e que nunca mais voltará, ela no fundo também sentia medo e medos e medos e medos, tornou olhar a janela, viu o vazio no céu, então murmurou novamente baixinho para si mesma:

- Às vezes é melhor, mais seguro, que os sonhos de liberdade não saiam do casulo, e fiquem vivos, mas dentro do coração.

Arnoldo Pimentel

 
Esse conto faz parte da Trilogia dos Meninos

quarta-feira, 2 de maio de 2012

BOLSAS, SACOLAS, GENTE, PÁSSAROS E OUTROS ACESSÓRIOS


As pessoas entram e saem das lojas
Os pássaros, cães e gatos observam
De suas celas na loja de animais
E as árvores estão molhadas

A manhã segue a rotina
Passos apressados pelas calçadas
Bolsas vazias e
Sacolas de supermercados
Penduradas pelas mãos

Que não acenam
Para a nova estação
Que chega numa manhã fria

Com ventos molhados
Beijos secos
Calendários apagados

Arnoldo Pimentel

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Livro da Rosilene Jorge dos Ramos



Para adquirir o livro da poetisa Rosilene Jorge dos Ramos entre em contato
Gambiarraprofana.blogspot.com

quarta-feira, 25 de abril de 2012

LUAR ATRÁS DO MONTE



Sem Você
Eu não sei o que seria de mim
Não sei até onde vai
O horizonte do deserto de Sonora
E não conheço as grutas
Onde se escondem as luas
Nas noites sem lua

Ontem passei a madrugada inteira
Assistindo “O Velho e o Mar”
E procurei em suas entrelinhas
Os atalhos que existem nos mares
Para se chegar até a fonte dos sonhos
Onde os mares e a solidão se encontram no entardecer
Onde as pegadas que deixamos na neve
Não se apagam

Para mostrar que nossas vidas não são em vão
Mesmo que tudo passe
E o tempo se acabe
Atrás do monte

quarta-feira, 18 de abril de 2012

ADAGAS EM VOLTA DA MESA


Eu também sou apenas
Um contador de histórias
Ouvindo o Dylan
Nas tardes de insônia

O Dylan sempre me trouxe
Uma sensação de liberdade e prisão
Muito grande
Posso estar aqui ou ali
Ou no mesmo lugar sem estar

A escola dominical ensinou-me apenas
Que tenho que esquecer o dia anterior
E isso eu sempre soube
Apenas não me desgarro desse dia anterior

O dia anterior é minha história
Não adianta eu fingir que não aconteceu
Fazer o mundo esquecer
Que um dia eu fui eu

Prefiro gritar a me calar
Soltar minha acidez na rua
Do que entregar minha pele
Minha aridez é crua
Minha áurea é livre
E sua cor é nua

Arnoldo Pimentel