Edicões Gambiarra Profana/Folha Cultural Pataxó




"Minha Poesia não usa vestes para se camuflar, é livre e nua" (Arnoldo Pimentel)

"Censurar ninguém se atreverá, meu canto já nasceu livre" (Sérgio Salles-Oigers)

"Gambiarra Profana, poesia sem propriedade privada, livre como a vida, leve como pedra em passeata" (Fabiano Soares da Silva)

"Se eu matar todos os meus demônios, os anjos podem morrer também" (Tenneessee Williams)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

MONTE ALEGRE



MONTE ALEGRE
Aos meus irmãos Cláudio Rangel, José Luiz, Fábio e nossos irmãos de infortúnio.

Na rua tinha uma espécie de sinalizador
A padaria ficava em frente a uma oficina mecânica
 E às vezes os tanques de guerra passavam por lá
Eu precisava saber a hora de atravessar a rua e pegar o ônibus à noite
Confesso que demorei um pouco para assimilar quando essa hora chegou
Durante uma tarefa de rotina nosso jeep capotou
O chefe da equipe dirigia o veículo e foi liberado
Nós fomos presos, o chão da cela era frio
As paredes pareciam nos espremer
Todos os relógios pararam
Só restou a vela acesa no canto
Que dava para o Monte Alegre
Não havia cobertor
Não havia cama ou colchão
Alguns dias não são esquecidos.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

NO CÉU HAVIA NUVENS




Ela não mora mais ali. O portão verde e a casa, que era grande, não existem mais. Ela gostava de passear pela praia, sempre pela manhã, porque era mais calmo, não tinha tantas pessoas. Quando sentia frio vestia um casaco que ia abaixo dos joelhos. Ela nunca viu o mar. Para passear na praia ficava desenhando no caderno, desenhava o mar, a areia, os sonhos e plainava na sua imaginação. Ela não gostava muito de bonecas, gostava do mar. Ela não tinha bonecas e morava longe, muito longe do mar. Seus irmãos não tinham bolas de futebol, não tinham carrinhos, brincavam no quintal.

- Crianças, todos para o quarto, arrumem a esteira, é hora de dormirem.

Já era tarde, não havia luz, a avó pegou o lampião da sala e levou as quatro crianças para o quarto. Elas abriram a esteira, forraram com lençol e deitaram. A janela ficava sempre aberta em noites quentes ou frescas como aquela. Não havia medo, elas estavam longe do mar, os tubarões vivem no mar. Elas estavam longe da selva, os leões vivem na selva.

- Sua bênção vó – disseram as crianças.
- Deus abençoe – disse a avó.
- Sua bênção tia, sua bênção mãe – gritaram as crianças.
- Deus abençoe – responderam a mãe e a tia lá cozinha, onde conversavam.

As luzes dos prédios são acesas ao anoitecer, é sempre noite.
São as cidades.
São as cidades.

Arnoldo Pimentel

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

PAISAGEM DA LUA



      Eu morei no Brooklyn. Morei um bom tempo no Brooklyn. Tenho muitas fotos dessa época. Fotos das esquinas e com amigos que convivi. As fotos são todas em preto e branco. Gosto de fotos em preto e branco, acho que são mais reais, mesmo sabendo que talvez a realidade seja melhor na paisagem da lua. Tenho fotos de pessoas com sacolas atravessando a rua e fotos nos bares com amigos e nossas cervejas. Às vezes eu ficava perto da ponte, são muitas pontes, mas havia uma ponte diferente, era a ponte sobre as águas na parte do rio perto da curva onde enterram corações, onde enterram histórias e astronautas doidões. De um lado do rio ficava a estação de trem, parecia a estação onde se tocava gaita, de tão isolada que era. Do outro lado ficava a parada do ônibus que partia às cinco da manhã para Manhattan e só retornava as sete da noite. A parada do ônibus ficava na porta do bar onde eu e meus amigos bebíamos nossa cerveja ouvindo Joan Baez e declamando poesia. Numa noite dois parceiros cantaram uma música de autoria deles:  "Ela é minha Joa Baez, Eu sou Bob Dylan dela". É a última lembrança que tenho do bar na parada do ônibus, do tempo que eu não sei se volta mais.
       Eu morei no Brooklyn tantas vezes que nem lembro mais. Ainda passeio por lá algumas vezes, mas não tiro mais fotos, agora é tudo em cores e as fotos não são reais.

Arnoldo Pimentel

sábado, 16 de agosto de 2014

SOBRE AS CORES DO DIA ANTERIOR

        Depois da chuva que durou a noite toda e parte da manhã a caminhonete parou em frente ao portão na rua silenciosa. O motorista buzinou para avisar ao morador que estava esperando. O homem de certa idade abriu a janela de madeira pintada de verde da casa pintada de branco e pediu que esperasse um minuto, fechou a janela, pegou duas sacolas que estavam sobre a mesa, depois pegou o maço de cigarros e os fósforos e colocou no bolso da camisa. Saiu da casa encostando a porta atrás si sem se preocupar em passar a chave, caminhou pelo quintal com dificuldade por causa da lama e da idade, abriu o portão, saiu, encostou o portão e entrou na caminhonete.

- Não vai trancar a porta da casa e o portão? – Perguntou o amigo.
- Não há quase nada na casa, só história, e talvez sem importância.
- Aonde vamos?
- Na paróquia, vou levar essas sacolas para a caridade.
- O que tem nas sacolas?
- Carne, decidi não comer mais carne.

O motorista ligou o veículo e foram devagar pela estrada molhada.
- Depois da paróquia você vai trabalhar?
- Não há o que colher, nem mais o que fazer.
- Sempre tem alguma coisa pra colher ou fazer.
- Não, não tem nada.
- Insisto que sempre há o que colher ou fazer.
- Não insista, não há mais nada para salvar nesse lugar.
- Se pensa assim.
- É a realidade. Tudo foi feito em vão. Foi um engano.
- E você pretende ir a algum lugar depois da paróquia?
- Pretendo passar nas trincheiras e ver os resíduos.
- Nas trincheiras só tem mortos.
- E nós o que somos? Vivos? Você acredita que somos vivos?


Arnoldo Pimentel

quarta-feira, 30 de julho de 2014

COISAS PRA FAZER NA CIDADE



Passei só pra ver vocês
Pra saber como estão
Como sempre faço
Desculpem-me por não demorar
Mas tenho coisas pra fazer na cidade
Que impedem de me ausentar ainda
Mas sei que um dia ficarei com vocês
Eu até gosto daqui
Gosto do gramado, das flores, do vento
Apesar dos carros, dos ônibus e dos trens
Que passam lá fora.

Arnoldo Pimentel
 

domingo, 13 de julho de 2014

PARÁBOLA DO DUELO MORTAL EM TERRA HOSTIL

          Abri a janela do quarto de hotel onde estava hospedado e vi o sol que banhava a manhã. Na rua, lá embaixo, um mar de automóveis e de pessoas. Pessoas que andavam em todas as direções. Pessoas que não se conheciam, que não se olhavam, que não se abraçavam, que não se tocavam. Todas carregavam uma faca na cintura. Facas cortam.
          O lugar onde eu morava, quando jovem, entre os treze e dezoito anos era pequeno, um lado esquecido na grande metrópole, tinha poucas ruas e casas com chaminés. Todas as tardes o mustang azul atravessava a ponte de madeira sobre o riacho de água pura e cristalina, onde meu irmão matava sua sede, onde meu irmão saciava nossa sede com sua música. Depois de atravessar a ponte, cortava a estrada levantando poeira, dobrava à esquerda e parava em frente ao bar “Cantina”, onde eu e alguns amigos passávamos as tardes bebendo conhaque, na rua que ficava à sombra do vulcão que habitava a montanha dos Abetos ermos.
           O piloto do mustang descia do carro, sentava no banco de madeira e nos contava histórias, aventuras, suas idas e vindas pela terra das nuvens, antes nunca desbravadas. Para nós que ainda éramos tão jovens, apesar dos conhaques, ele era como o corredor X. Ele era o herói da nossa contra cultura, da nossa luta pela sobrevivência em terra hostil. Ele nos ensinou a gostar dos filmes de Kung Fu. Eu me sentia feliz quando ia ao único cinema do lugar assistir filmes de Kung Fu. Eu preferia os do Bruce Lee e os do Wang Yu. Eu saia do cinema me sentindo o paladino do oeste, o deus do kung fu, O Cisco Kid, o delegado Matt Dillon, o Cartwright, o Clint Eastwood, o herói que acabava com as injustiças sociais e trazia esperança e felicidade para meus irmãos.
           Eu queria ser livre como o mustang azul. Ir às passeatas contras as guerras, queimar as bandeiras do preconceito e do poder que nos sufocava.  Eu era um subversivo. Um subversivo que queria ir para o paraíso, mas não ia à igreja. Um subversivo que lia a Bíblia todos os dias, mas fumava e bebia todas. Um subversivo que não pegava em armas e não queria nem saber de política. Um subversivo que sonhava, talvez como Peter Fonda e Dennis Hopper em “Sem Destino” ou quem sabe como Woody Allen em “Sonhos de um Sedutor”, querendo aprender com Humphrey Bogart como conquistar sua Ingrid Bergman ou sua Lauren Bacall.
           Naquela manhã, fechei a janela e pensei naquela terra que ficou distante, que se perdeu entre as doses de conhaque e as corridas de carros aos domingos pela manhã. Desci ao hall do hotel, folheei o jornal e fui ao bar para o café. O barman se aproximou do balcão e fiz o pedido:
- Dois bifes, duas fatias de pão, duas fatias de bacon, dois ovos e lingüiça suína.
- Algo para acompanhar senhor?
- Uma caneca de café com rum e enquanto espero um whisky cowboy duplo.
           Enquanto saboreava o whisky não percebi o homem que encostou ao meu lado. Ele estava bem barbeado, usava camisa cinza, terno preto e gravata preta. Um pouco distante, mas certamente junto com ele estavam dois homens, também barbeados. Os dois usavam camisa branca, terno preto e gravata preta.
- Está na hora de ir. – Disse o homem.
- Está falando comigo senhor? – Perguntei a ele.
- Estou. Você sabe que tem que ir.
- Sei, mas não sabia quando, nunca me disseram.
- Agora. Você vem ou chamo meus amigos para lhe ajudar?
- Eu nem tomei meu café da manhã ainda.
- O problema não é meu, você teve todo tempo do mundo.
- Posso terminar meu whisky?
- Pode, mas de uma só vez e venha.
Engoli o whisky, me ajeitei um pouco e disse:
- Vamos, não há mais nada o que fazer.

- Não há.

terça-feira, 22 de abril de 2014

PHILADELPHIA SOUL E O VIOLÃO ACÚSTICO



PHILADELPHIA SOUL E O VIOLÃO ACÚSTICO
(Este poema é parte integrante do conto “Philadelphia Soul e o Violão Acústico” de Arnoldo Pimentel

Voltei meus olhos para algum lugar que passei,
Não vi luzes, nem guitarra elétrica,
Preferi sentir a solidão do violão acústico que invadia os lagos do luar.

Seus passos ainda existem,
Mas não estou lá,
Talvez nunca tenha estado,
Mas a calçada está,
O muro também está.

Perto da calçada e do muro
Ainda posso ver o Dodge Dart, a Veraneio,
A solidão, a câmera que tremia sobre meus ombros,
E as marcas dos corpos na parede

Arnoldo Pimentel