Edicões Gambiarra Profana/Folha Cultural Pataxó




"Minha Poesia não usa vestes para se camuflar, é livre e nua" (Arnoldo Pimentel)

"Censurar ninguém se atreverá, meu canto já nasceu livre" (Sérgio Salles-Oigers)

"Gambiarra Profana, poesia sem propriedade privada, livre como a vida, leve como pedra em passeata" (Fabiano Soares da Silva)

"Se eu matar todos os meus demônios, os anjos podem morrer também" (Tenneessee Williams)

domingo, 15 de julho de 2012

NUVENS



Eu só queria poder olhar
E ver o céu
Ver as luas que passam
E olham

Ouvir a poesia das nuvens
Quando choram
Para dizer
Que eu não preciso olhar

Para sentir o que foi desenhado
Lá meio do mar
Onde as grutas escondem as luzes azuis

Que enfeitam as minhas palavras
Escritas com giz
Para não serem apagadas

Arnoldo Pimentel

Este poema é parte integrante do Livro Nuvens, para adquirir acesse:
Blog     gambiarraprofana.blogspot.com


Amigo(a) visite o link abaixo e leia a segunda parte da minha entrevista ao Poetas de Marte, desde já agradeço a amizade.


domingo, 8 de julho de 2012

SE AS FOLHAS AINDA FOSSEM VERDES...


SE AS FOLHAS AINDA FOSSEM VERDES...

O violão estava pendurado nas costas, talvez fosse sua única companhia, sua única amizade, seu alento nas horas que queria ficar só, às vezes olhando a chuva do celeiro, às vezes sentido a noite emaranhar-se com seus tormentos. Entrou na sala onde havia um homem sentado no sofá fumando um cigarro e observando a fumaça perder-se no tempo com sua gaita sobre o braço do sofá.

- Está na hora meu pai.
- Hora de que filho?
- Minha hora de partir, de buscar meu próprio rumo.
- Você é muito jovem ainda.
- Eu sei me cuidar pai.
- Não duvido disso, mas aqui é seu lugar.
- Meu lugar é lá fora pai.
- Seu irmão é mais velho que você e não deixou nossa casa.
- Sou diferente pai, preciso ganhar o mundo.
- Ganhar o mundo com seu violão?
- Com minha música e meus sonhos.
- Não vou te prender filho, não iria adiantar, você seria infeliz.
- Sou um andarilho pai, o mundo é minha casa, minha música minha vida.
- Não vai se despedir do seu irmão?
- Melhor não, ele não me entende.
- Vai voltar um dia?
- Não sei,  adeus pai.
- Quer levar a gaita?
- Não, ela é sua,
- Você é muito bom, ela lhe fará bem.
- Melhor não meu pai, melhor eu ir logo.
- Adeus filho.

Ele virou as costas, caminhou até a sala, abriu a porta e partiu. O pai ficou sozinho, acendeu outro cigarro, deu um trago, colocou sobre o cinzeiro, pegou a gaita e desistiu de tocar, ficou lembrando sua esposa que já era falecida há algum tempo, talvez desde então seu filho mais novo tenha começado a sentir vontade de partir, de seguir seu rumo, ouviu o portão de madeira fechando e preferiu não olhar e vê-lo ir embora, no fundo queria muito que ele fosse feliz.

O ônibus encostou na parada, um posto de estrada, o homem desceu degrau por degrau pela única porta do veículo, tinha barba de uns cinco dias, vestia calça jeans, jaqueta jeans por cima da camisa branca, chapéu e botas, tudo um tanto surrado pelo uso, nas mãos um violão e uma pequena mala, entrou no bar e foi até o balcão, colocou a maleta e o violão num banco e sentou no outro.

- Uma cerveja e algo para comer, por favor.
O barman abriu a cerveja, trouxe algo para comer.

- É novo na cidade?
- Pode-se dizer que sim.
- Se está procurando trabalho como músico, por aqui é difícil.
- Eu sei.
- O senhor não fala muito.
- Não, quase não falo.
Ele terminou a refeição, pagou, pegou seus pertences, saiu do bar e seguiu pela estrada, caminhando devagar e assoviando uma música, a mesma que tocava com a gaita de seu velho pai.Caminhou uns trinta minutos até que parou em frente a um portão, o portão que ficou para trás havia muito tempo. Murmurou para si um poema que veio imaginando no caminho.

                                                       
Aqui eu não me sentia bem
Tudo era tão difícil
A estrada era de poeira
Às vezes ventava tanto que eu tinha que me esconder
Dentro da geladeira
E nesses momentos eu só queria ir embora
Agora fico olhando aqui do lado de fora
E não sei se devo abrir o portão
Só em ver a varanda tão cheia de flores
De amor e de vida
E paz a reinar
Tenho medo que não me abracem
Que não me recebam bem
Por causa da saudade



 Ficou ali parado alguns minutos e por fim abriu o portão e entrou, foi vencendo a distância entre o portão, (o mesmo portão que ficou para trás havia muito tempo, o mesmo portão que viu seu vulto e seu violão desaparecerem na estrada) e a porta da casa que estava fechada, bateu e ouviu uma voz vida de dentro

- Já vai
A porta se abriu e um homem um pouco mais velho que ele apareceu
- O que faz aqui depois de tantos anos? Perguntou o homem
- Voltei para rever meu passado e tentar encontrar meu futuro – Respondeu
- Quem é? Disse uma mulher lá de dentro
- É meu irmão – Respondeu o homem da porta
A mulher apareceu junto a porta, também era um tanto mais velha que ele
- Eu sou esposa do seu irmão, ele fala muito pouco de você – Disse a mulher
- Eu compreendo – Respondeu
A mulher virou-se para o homem que estava na porta e disse:
- Não vai convidar seu irmão para entrar, para conhecer a família, conhecer nossos filhos?
O homem virou para ele e disse:
- Entre, já faz tanto tempo que nem o conheço mais – Disse o homem
- Sim, faz muito tempo – Respondeu e entrou na sala
- Sente-se – Disse o homem agora dentro da casa
Ele sentou e colocou o violão e a pequena mala no chão, ao lado do sofá.
- Eu vou chamar as crianças e terminar o jantar – Disse a mulher
Ela subiu a escada para os quartos e chamou os filhos que desceram correndo e abraçaram o tio distante, tio que nunca tinham visto, além de antigos retratos.
- Tio você veio de longe? - Perguntou o menino de uns oito anos
- Sim, vim de longe, do outro lado da montanha.
- Nós te amamos, papai só fala de você as vezes,só quando perguntamos, mas nós te amamos - Disse a menina de uns seis anos.
Ficaram na sala se conhecendo até que o menino disse:
- Toque o violão.
Ele pegou o violão e ficou ali tocando, cantando algumas músicas, a voz já não era a mesma, mas ficou ali tocando e cantando seu passado.
- Pegue sua gaita e toca pro tio - Disse a menina
O menino subiu e desceu a escada correndo e trouxe a gaita, o homem pegou e reconheceu a gaita de seu pai.
- Toca pra mim - Disse ao sobrinho
O menino tocou, e riu e tio chorou.
- Está triste? - Perguntou a menina
- Não, estou lembrando do meu pai, avô de vocês, que também tocava gaita.
- Essa era dele, papai me deu quando vovô morreu - Disse o menino
E ficaram os três ali a conversar, enquanto seu irmão e a esposa preparavam o jantar.
Chegou a hora do jantar e foram todos para a mesa, quando terminaram a mamãe falou para as crianças se despedirem do tio e irem pra cama.
-Mãe eu posso fazer um desenho e pintar no quarto antes de dormir, para mostrar o tio amanhã?
- Pode sim, agora se despeçam do tio, subam e orem antes de dormirem. - Disse a mãe.
- Até amanhã tio - Disse a menina
- Você vai morar com a gente? - Perguntou o menino.
- Ainda não sei, mas amanhã a gente vai passear, agora vão se deitar.
As crianças subiram correndo e felizes.
Os três adultos ficaram na sala e a mulher falou.
- Seria bom você ficar conosco, sempre tem lugar.
- Eu pretendo ficar, se puder
- Hoje você dorme na garagem, vamos lá arrumar, amanhã a gente resolve - Disse o irmão
- Até amanhã - Disse para a cunhada.
- Até amanhã.

Os dois irmãos saíram da casa e foram para a garagem, entraram e ele disse ao irmão mais velho:
- Eu tentei a vida na música
= E então?
- Minha experiência não foi das melhores
= Mas, e sua música?
- Isso é só um detalhe
= Não quer falar?
- Melhor não
= Drogas? Foi isso?
- Eu só quero recomeçar
= Depois de tanto tempo fora?
- Eu preciso
= Tantos anos, acha pouco? Há sete anos que não liga
- Era melhor não ligar
= O pai se foi a dois anos, esperando você entrar pela porta
-  Eu não tinha como voltar
= E agora volta esperando sorrisos
- Não espero sorrisos, apenas uma chance
= Você não é um bom exemplo de vida para meus filhos.
- Eu sei, mas preciso ter uma família, preciso acreditar na vida.
= Desde que seja longe daqui, o ônibus parte as cinco e trinta da manhã, lá do posto.
- Não tenho chance?
= Estou pensando no bem dos meus filhos, você é um andarilho, seu lugar não é aqui, você não faz parte da minha família, desde que saiu pelo portão para seguir seus sonhos e nos deixou, eu e o pai sozinhos.
- É um adeus?
= Adeus

Antes  do galo cantar sentiu que teria mesmo que partir, saiu da garagem, chegou ao meio do quintal, olhou para trás e viu a casa que deixaria mais uma vez, dessa vez para sempre, não fazia parte dali, talvez nunca tenha feito mesmo, enquanto caminhava até o portão foi criando um poema.

Ainda não ouvi o galo cantar
Mas confesso que tenho medo
Do que poderá vir, fico confuso
Só em pensar como a lua irá dormir hoje

As estradas irão aparecer do nada
Mas só poderei seguir uma
A estrada do meu destino
E não sei se estarei pronto

Para levar aos ventos
O Amor que conheço
Para falar desse Amor
Que não mereço

Minha fragilidade está à flor da pele
Acho que ficarei à beira mar
Ficarei por horas
Para tentar descobrir
Se poderei mesmo ser um pescador

Saiu pelo portão e seguiu a estrada que o levaria até o posto, onde chegou na tarde passada, parou na pequena ponte sobre o córrego, olhou as águas claras que seguiam o caminho, resolveu descer para sentir o córrego de perto, desceu, abaixou e tocou a água limpa, nesse momento pensou umas palavras que mostravam um pouco do que estava sentido, do que viu além das águas do córrego.

VÁCUO DENTRO DO CÓRREGO

Olhando de longe parece
Não existir fronteiras
Toda a paisagem é maquiada com flores
É de perto que se vê
O vácuo dentro do córrego
Os versículos do mesmo capítulo
Que não se juntam
O amargo dos sorrisos
As rugas que se multiplicam
Os fuzis que atiram em silêncio
Os muros que se levantam
Os vivos que se tornam mortos

Entrou no ônibus levando a mala e o violão, sentou num lugar junto a janela,  esperando a hora do ônibus partir, enquanto isso ficou imaginando, olhando, tentando descobrir  onde está escondido o horizonte ausente, tentando descobrir quando os melhores anos de sua vida iriam lhe reencontrar. O ônibus partiu pontualmente as 5:30, ainda de madrugada, ele olhou a paisagem em movimento e falou para si mesmo:

- “Eu sei que meu olhar percorre apenas estradas vazias”

Eram sete da manhã quando a mãe, um pouco entristecida foi atender os filhos que chamavam na sala.

- Mãe – Disse a menina, que estava ao lado do irmão que tinha a gaita na mão.
- Sim, mamãe está ouvindo.
- Olha o girassol que desenhei e pintamos juntos pro tio, será que ele vai gostar?
- Mãe
- Oi filho
- Diz onde o tio está?

Arnoldo Pimentel

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Poesias Escondidas no Quintal dos Meus Dias (Livro de Rosilene Jorge dos Ramos)


POESIAS ESCONDIDAS NO QUINTAL DOS MEUS DIAS


Hoje faço uma homenagem a minha amiga do Grupo Gambiarra Profana e da Folha Cultural Pataxó, cujos blogs podemos encontrar trabalhos da Rosilene. Sempre amiga, tenho muito a agradecer a Rosilene a apresentação do meu livro Nuvens. A poesia da Rosilene já diz por si só o grande talento que ela tem.



Rosilene Jorge dos Ramos, nasceu no dia 30 de junho de 1978 no bairro São Cristovão, cidade do Rio de Janeiro, mas foi criada na Baixada Fluminense, morou em São João do Meriti RJ, estudou em Nilópolis RJ e andou muito por Nova Iguaçu RJ, hoje mora em Casimiro de Abreu RJ, onde atua como professora da rede municipal onde vive e do município de Macaé RJ.
Participa da Folha Cultural Pataxó e do Gambiarra Profana. Em 2000 teve algumas poesias de sua autoria publicadas em um livro coletivo, intitulado “O Pão e a Fome”.
“Poesias Escondidas no Quintal dos Meus Dias” é o primeiro livro de poesias de Rosilene e é editado pela Gambiarra Profana/Folha Cultural Pataxó.


ADORNO

Hoje pus flores no cabelo.
Não imaginava causar tanto frisson.
Olhares desviados,
Elogios delicados,
Sorrisos frouxos em minha direção.

Hoje só pus as flores no cabelo
Para dizer que o inverno chega,
Que a primavera não acaba,
Que é preciso parar de chorar.

Hoje pus flores no cabelo
Para secar as lágrimas,
Sorrir com o outro,
Comemorar o sonho,
Espalhar sorrisos,
Dizer que há dias bons.
Hoje pus flores no cabelo
E de maneira simples
E não intencionada
Denunciei o que está em mim.

EU E OS OUTROS, OS OUTROS MAIS EU E UM OUTRO EU

O olhar do outro me reprova.
O olhar do outro me incomoda.

Que merda são os outros!

Todos os olhos
Censuradores, acusadores, nunca culpados.

Os outros sempre fodem com agente.
E eu, enquanto outros, também fodo com os outros?

E se fosse só eu...
Como seria eu?
Haveria um eu?
Eu existiria sem os outros?

EM DOIS

Dividiram-se ao meio desde que nasci:
Olhos do pai, a cara da mãe.

Um corpo e uma alma.

Negaram-me a alma.
Disseram que não era minha.
Destituíram meu corpo.
Disseram que não prestava.

A alma tinha de voltar para o dono
E o corpo devia morrer
Para salvar a alma que prestava,
Mas que nunca me pertenceu,
Nem me pertenceria.

O que sou então?
Um corpo sem alma?
Uma alma sem corpo?

O que sobra para sentir?
O que sobra pra saber?


Para adquiri o livro “Poesias Escondidas no Quintal dos Meus Dias”
Da Rosilene Jorge dos Ramos entre em contato: passe o mouse abaixo e aparecerá o link.


terça-feira, 26 de junho de 2012

GDÁNSK





GDÁNSK
Este conto é dedicado aos meus amigos de pescaria de anos atrás( José Antônio, Pedro, Edson, Marcos, Vanderley)
                                                           
Já passavam das dez horas numa manhã fria de sábado quando o ônibus parou no ponto e um homem desceu, vestia um casaco longo, chapéu e luvas para se proteger do frio, ficou parado um breve instante olhando o mar, depois virou-se e olhou o bar e restaurante do outro lado da via, atravessou e entrou. Sentou em um lugar junto a janela para poder olhar o mar.Parecia sentir a melodia do frio indo em busca das paisagens que iria pintar.

- O senhor deseja alguma coisa? – perguntou a garçonete
- Chocolate quente e pão integral
Fez o pedido e ficou olhando a estrada e do outro lado o mar, o mesmo mar onde costumava pescar, lá nas pedras, com mais cinco amigos há muito tempo.Quinze minutos havia se passado quando uma pick up preta, encostou em frente ao restaurante, um homem mais ou menos de sua idade desceu e entrou esfregando as mãos, olhou o ambiente, o reconheceu e sentou.

+Você não mudou muito nestes últimos quarenta anos – Disse o homem
- Você também não mudou muito – respondeu
+Que nada, envelheci assim como esse lugar
- O mar continua o mesmo no inverno
+ Por isso pescávamos no verão
- Era uma época boa, éramos jovens, nós todos
+ Recebi sua carta marcando aqui
- Passei a vida toda fora depois que deixei nossa cidade
+ Eu também nunca mais vim aqui, mas continuo vivendo lá.
 O amigo pediu um café e torradas e continuou:
+ Lembro dos sábados que víamos para pescar, duas horas e meia de trem e ônibus, varas de pecar, aquelas coisas todas.
- Todo sábado era a mesma coisa, aqui mesmo, pegávamos o cardápio e ficávamos escolhendo por uns 20 minutos, sempre bife com fritas,ovos, bacon e refrigerante
+ Depois íamos pescar até o amanhecer lá nas pedras
- E nunca pescávamos nada, ou um peixinho de vez em quando.
+ Mas sentíamos a vida, plantavamos lembranças que hoje estão vivas em nós.
Ele olhou outra vez o mar, a estrada, as gaivotas, os barcos e seus sonhos que ficaram.
- Eu voltei para passar meu resto de tempo aqui
+ Você vai gostar, aqui parece ser tranquilo ainda.
- Espero que seja, estou mais parado do que antes, acho que é a idade.
+ Vai comprar algum imóvel?
- Não, vou alugar, não teria para quem deixar, nunca formei família.
+ Eu compreendo, virei sempre te visitar.
- E os outros como estão?
+Nunca mais tive notícias deles, todos partiram, você sabe cada um busca seu caminho.
Ele tirou do bolso um retrato onde estavam os seis com um enorme peixe pendurado no anzol.
- Este é o único retrato que tenho
+Aquele peixe enorme, rsrs
- Mostro a amigos com quem jogo cartas, xadrez, na praça onde moro e acreditam, não percebem que é  truque de fotografia, que é apenas uma sardinha.
Os dois amigos de outrora riram.
+ Você ainda gosta de assistir filmes?
- Gosto muito.
+ Há tempo não assisto um filme.
- Uma vez assisti a um filme, os homens seguiram em fila indiana pela neve até um determinado local, no bosque aos redores de uma vila, foram perfilados pelos soldados, depois ficaram de joelhos, com olhos fechados e fizeram uma oração, como se rezar adiantasse alguma coisa ali, os tiros ecoaram na escuridão da manhã e o sangue manchou a neve de vermelho, de medos, de sonhos, de inocentes e culpados. Naquele momento me lembrei de Gdánsk.
+ Gdánsk?
- Gdánsk não, me desculpe, Katyn, do massacre de Katyn

Amigo (a) leitor (a), seja sempre bem vindo (a), este conto faz parte da Trilogia Contos da Solidão, se puder leia os outros contos da solidão, de minha autoria, links abaixo, desde já agradeço, muito obrigado mesmo.Basta passar o mouse abaixo dos títulos que o link aparecerá.

 
A QUITANDA

A PARTIDA

sexta-feira, 22 de junho de 2012

TERRA PROMETIDA


Caminharei desacordado pela imensidão branca
Meus anos dourados ficarão largados
Na estrada do deserto que vou atravessar
Sem poder olhar para o horizonte sem cores azuis

Toda vez que olho para o lado vejo seu rosto me iluminar
Toda vez que olho para o céu vejo a vida escondida
Entre as luas que devemos desvendar antes do novo amanhecer
Que será acolhido pela ansiedade de um dia ser feliz

Estou longe dos olhos que purificarão meus sonhos
Talvez chegue a  manhã que o vento litoral sopre no meu deserto
Ouço a gaita tocar a melancolia através do olhar
Escurecido pelo medo de fraquejar durante a caminhada

Meu temor só findará quando eu for adormecido
Na fronteira que abrandará a entrada na terra prometida
Não sei se serei folhagem que nascerá no novo amanhecer
Mas ficarei entristecido enquanto a porta não se abrir para mim

Arnoldo Pimentel

quinta-feira, 14 de junho de 2012

CÉU COBERTO POR FERRUGEM


Ainda nem sabe como será seu futuro
Mas tem que despir o corpo
E entregar-se ao céu

E ver seu próprio inferno
Seu próprio esquecimento
Seus limites e suas correntes

Seu rosto fica escondido
Entre luas
Abraça seu passado dependente
Com seu futuro dependente
O vácuo se hospeda no armário do cotidiano
Da vida que esvai
Vazia
Num eterno suplício
No abraço morto de todos os seus dias

quinta-feira, 7 de junho de 2012

ÁGUAS ONDE NÃO VAGAM MAIS FLORES EM BUSCA DO SOL


Os edifícios ficam bem longe
E daqui não dá pra vê-los
Nem com os olhos fechados

As árvores estão vazias
Assim como as ruas
Nas tardes de inverno

E as pegadas se apagaram
Junto com a neve
Que derreteu

Já é tarde para escrever promessas
Para olhar o fundo do rio
Onde não há mais peixes a serem pescados

Arnoldo Pimentel