Edicões Gambiarra Profana/Folha Cultural Pataxó

"Minha Poesia não usa vestes para se camuflar, é livre e nua" (Arnoldo Pimentel)
"Minha Poesia não usa vestes para se camuflar, é livre e nua" (Arnoldo Pimentel)
"Censurar ninguém se atreverá, meu canto já nasceu livre" (Sérgio Salles-Oigers)
"Gambiarra Profana, poesia sem propriedade privada, livre como a vida, leve como pedra em passeata" (Fabiano Soares da Silva)
"Se eu matar todos os meus demônios, os anjos podem morrer também" (Tenneessee Williams)
terça-feira, 19 de outubro de 2010
SILÊNCIO MUDO (CONTO)
SILÊNCIO MUDO (CONTO)
No ar o aroma do café fresco sendo passado no coador de pano, aroma que tomava todo o ambiente da cozinha, a mesa posta para as duas pessoas que viviam ali, por fim, o café ficou pronto e X serviu-o nas duas canecas enquanto Y olhava com olhar desatento, X sentou-se à mesa e começaram a refeição matinal, refeição simples, café, pão, manteiga e ovos estrelados, alimentaram-se em silêncio, não tinham nada mesmo para conversar, levantaram-se após terminarem o café, era hora de começar o dia, Y retira a mesa do café, lava as canecas e pratos, guarda as sobras de pão e começa a arrumar o alimento que levarão para o trabalho, enquanto X ocupa-se em preparar os lampiões com querosene para acenderem quando voltarem no início da noite e iluminar a casa, arruma também as ferramentas que usarão durante o dia no trabalho.
A caminhada para o local onde estavam trabalhando era longa, seguem lado a lado, o sol já brilha no céu prometendo um dia bastante quente. A paisagem é um tanto seca, o vento levanta a poeira que sobe pelos corpos suados. Todos os dias a mesma caminhada silenciosa, sem palavras para enfeitar o quadro que vai sendo pintado ao longo do tempo, um quadro pintado pelas cores do silêncio, da paz que esconde mágoas, da terra que não espera nada. Em alguns momentos apenas se olham, talvez esperando algumas palavras, ou um beija-flor aparecer e tocar as flores que estão no jardim dos sonhos. O dia foi passando e o trabalho correndo normalmente, trabalhar a terra, plantar, colher, sobreviver, é essa a vida que levam. A tarde chega o sol vai baixando, sem palavras, sem gestos amigos, apenas o companheirismo de estar sempre perto, com o mesmo propósito, ver todos os dias o sol nascer, manterem a esperança de um dia ser melhor, poder dizer que vale a pena viver.
Chega a hora de voltarem, fim do dia, outro dia que poucas vezes se olharam, poucas vezes se notaram, mas o trabalho foi feito, dever cumprido, o retorno não é diferente, apenas os corpos demonstrando cansaço, caminham lado a lado, o silêncio ecoa nos lados da estrada, o sol começa a se deitar, o anoitecer começa a nascer.
Foi apenas mais um dia na vida de duas pessoas, que vivem juntas, trabalham juntas e quase não se conhecem.Foi só mais um dia que acaba no por do sol, sem o canto do rouxinol, com o arame farpado do silêncio que separa vidas, impede idas e vindas de vidas impedidas.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
QUADRO
QUADRO
Pintei um quadro na parede
Um quadro meio sem nada
Sem cores para brotar
Um quadro sem enfeites
Pintei um quadro pincelado de dores
De olhares sem vulto
Sem espelho para se fitar
Sem paredes para pintar
Pintei um quadro chamado solidão
Com muitas pessoas ao seu redor
E um sol tímido partindo no entardecer
Um quadro que não será lembrando
Mostra apenas o triste dia que vi morrer
Entre cores brancas do amanhecer
terça-feira, 12 de outubro de 2010
EU E O IPÊ (Silviah Carvalho e Arnoldo Pimentel)
SELOS (Sinto -me honrado em ter recebido esses selos e repasso a todos os amigos que vistarem meus blogs)
1- Nina - http://doce-meio-amargo.blogspot.com
2- Maria- http://algarve-saibamais.blogspot.com
3- Corina-http://o-meu-reino-da-noite.blogspot.com
4- Ana - http://ternuras56.blogspot.com
REGRAS
1- Ler e comentar o poema (Estou sempre pedindo porque a poesia é a razão do blog existir e acho que todos deveriam fazer o mesmo, pois sempre ficamos tão felizes com o presente que esquecemos de ler e comentar a poesia)
2- Visitar, se possível, os blogs dos selos
3- Postar o selo e colocar o blog que presenteou (ventosnaprimavera.blogspot.com)
4- Repassar para no mínimo 05 blogs amigos
Eu e o Ipê
Autores: Silviah Carvalho e Arnoldo Pimentel)
Ouço palavras nos ventos
O canto das ondas no quebra mar
Vejo a lua procurando direção
Como uma câmera a fitar meu coração.
Em noites de chuva fina prefiro ficar na janela
Fugindo talvez, dos tristes olhos dela
Observo as vias, os carros parados
Imagino corações desesperados
Gotas cintilantes molham as vidraças
Como cristais de lagrimas a derreter
Vejo no outro lado da rua, o reflexo
Da minha tristeza, o solitário pé de Ipê
Suas flores roxas no chão mudam o cenário
Pintam um quadro imaginário
Minha vida, eu e quem sabe você
Abstrato – impossível crer...
Da minha janela vejo tudo que passa lá fora
Da fina chuva pessoas vão se esconder
Na praça balanços giram na força dos ventos
E você é constante nos meus pensamentos
Sinto-me preso a raros momentos
Vestígios em mim que ficou de você
Restos de saudades, frágeis lembranças
Que só diminuem minhas esperanças
Da minha janela sonho acordado com você
Desço as escadas da vida tentando te encontrar
Ao menos fim. Triste realidade a vida sem te ter
Encosto-me, divido a saudade com meu solitário Ipê
sábado, 9 de outubro de 2010
TUDO QUE EU QUERIA
TUDO QUE EU QUERIA
Tudo que eu queria ter
Era um pedaço de papel e uma caneta
Para escrever minha própria vida
Minhas próprias escolhas
Minha própria sorte
Tudo que eu queria encontrar
Era uma garrafa boiando no mar
Trazendo uma carta sua que me desse esperança
E me fizesse sonhar, viajando no meu próprio tempo
Vencendo barreiras e fronteiras a nos separar
Tudo que eu queria sonhar
Era com minha própria aquarela
Pintar meu próprio céu, aonde na
Realidade estivesse você e que
Nosso encontro deixasse de ser um conto
Tudo que eu queria ser
Era o papel que está escrito minha vida
Para poder ficar na chuva, para molhar
Até a tinta sumir até deixa de existir
Pois a vida não é vida, se você não está aqui
terça-feira, 5 de outubro de 2010
EU FIZ UM GOL
EU FIZ UM GOL
Houve um tempo que me dediquei ao futebol, como técnico e também como diretor de escolinha para garotos até 14 anos. No ano de 2001, eu e um amigo professor iniciamos um projeto para ensinar futebol e cidadania para garotos entre doze e quatorze anos, no começo eram 12 garotos e no final em 2006, quando deixamos o projeto com outros amigos, tínhamos cinquenta e oito garotos entre sete e quatorze anos. O professor ficava basicamente com a parte de campo e eu com a organização e um pouco de campo, e todo fim de semana tínhamos treinamento e também partidas amistosas com outros projetos. A parceria entre eu e o professor sempre deu certo, apesar termos visões diferentes em algumas coisas, como o tratamento aos garotos, ele era totalmente profissional, não se envolvendo em nada a não ser ensinar a prática do esporte e cidadania, enquanto eu me envolvia muito com os garotos, procurando saber junto às famílias sobre estudo e comportamento, com isso eles tinham em mim um amigo de todas as horas, e acho que por isso minha parceria com o professor sempre deu certo, pois além de amigos, nos entendíamos perfeitamente dentro do que fazíamos, apesar de opiniões diferentes em alguns pontos.
Todo sábado e domingo eu saia de casa com o material, bolas, uniformes, e alguns garotos me acompanhavam, pois residiam por ali, e foi num desses dias que vi na esquina um garoto pequeno, bem pequeno, uma chuteira na mão e um sorriso no rosto e me perguntou se poderia ir, respondi que sim, mas precisaria de uma autorização do responsável, no caso dele o pai, por escrito e assinada e assim ele entrou para o time. Quando chegamos ao clube, os outros garotos logo o chamaram de Romarinho, talvez por ser baixinho, mas assim passou a ser conhecido no projeto. Todas as categorias eram divididas por idade, e Romarinho ficou na categoria dele. Todo fim de semana, quando eu saia de casa por volta das seis da manhã para ir à padaria, lá estava Romarinho, sentado na calçada de sua casa com a chuteira na mão, eu falava que estava cedo, ele falava que já estava pronto e que iria fazer um gol, seu sonho era fazer um gol para o pai ver, mas o pai de Romarinho trabalhava todo fim de semana e não podia ir, mas ele sempre falava hoje vou fazer um gol pro meu pai ver, o pai não ia e o gol também não saia. Como Romarinho era menor e menos experiente, geralmente ficava na reserva, mas sempre entrava, corria, brigava, chutava, mas o gol não saia. Um dia quando eu passava pela rua para ir a padaria pelas seis da manhã e vi Romarinho sentado na calçada de sua casa, senti algo no coração, acho até hoje que foi um toque de Deus, e pensei hoje é o dia, alguma coisa me falava que naquele dia o gol sairia, o gol tão esperado, o gol tão sonhado, tão acreditado. Esperei o pai do garoto sair para o trabalho e fui falar com ele, pedi para ir no jogo, era importante pro menino, e seria na parte da tarde, as 15 horas, era festa de aniversário do projeto e teríamos um projeto amigo convidado, ele falou que tentaria ir. O jogo começou às 15 horas e o pai do Romarinho ainda não havia chegado, mas do campo, no banco de reservas ele olhava todo momento para a arquibancada, esperando ver o pai ali, torcendo por ele, acabou o primeiro tempo, descanso, menino impaciente, com os olhos procurando seu pai, o segundo tempo começou e ele entrou em campo, o jogo corria e lá pela metade do segundo tempo, o pai de do menino entrou no clube, sentou-se na arquibancada e ficou torcendo pelo filho, que do campo o viu na torcida, nessa hora ele começou dar mais ainda de si, as gotas de suor escorriam pelo corpo, tanto que antes do final estava cansado, o professor olhou pra mim e falou que iria substituir o Romarinho, então lhe pedi pela primeira vez, pois o professor tem a responsabilidade, autonomia, e eu jamais interferia no seu trabalho de campo, mas falei com ele, deixe o Romarinho e assim foi feito, o menino ficou em campo. Quando faltavam uns cinco minutos para o final, houve uma roubada de bola no meio do campo, e esta foi passada para o Mateus, ele tinha dois adversários pela frente, poderia passar por eles em direção ao gol, tinha plenas condições disso, mas jogou para a direita e levou até o fundo, lançou para o meio, a bola veio cortando a área, pernas tentando alcançar, em vão, o goleiro mergulhou esticando as mãos, mas não alcançou, foram quando o menino franzino veio correndo pela esquerda, o nome dele, Romarinho, estava ali a sua frente o gol esperado, sonhado, perseguido, o pai levantou-se na arquibancada, pescoços se esticaram, mãos acenaram, todos torcendo, uns contra, outros a favor, e a bola sorrateira como ela, cortava a grama em direção aos pés de Romarinho, ele chegou chutando, naquele momento, houve um silêncio, a bola viajou em direção ao gol, cortando o vento, cortando o tempo, o vácuo entre a alegria e a tristeza, segundos de incerteza, Romarinho olhando com os olhos arregalados e mãos cerradas, e então a bola balançou as redes, finalmente o gol, perseguido, sonhado, tudo parou, a única imagem que existia era a do garoto franzino correndo para as grades, agarrando-se nas grades, subindo pelas grades como se fosse alcançar o céu, gritando para o pai, eu fiz um gol, eu fiz um gol, eu fiz um gol.
sábado, 2 de outubro de 2010
VITÓRIA RÉGIA
VITÓRIA RÉGIA
Eu queria apenas olhar pela janela
Sentir a cor do olhar tocar minha pele
Sem desbotar o que eu trazia no coração
Para levar ao pólo norte das flores
Eu queria apenas que as rosas fossem flores
Para vestir junto com a calça jeans
Que estava esperando secar no varal
E entrar na vida antes que chegasse o fim
O fim da viagem que está logo ali
Depois do olhar que se prendeu na janela
E não viu a solidão passar
Não viu a flor sem mácula desabrochar
Eu sei que um dia, que talvez seja escuro
Irá nascer o caminho estreito e sem futuro
Que deverá sucumbir entre minhas folhas brancas
Onde estão escritos meus poemas ilhados
Nublados
Apagados
Sem ter pra onde voltar
Visite os blogs parceiros dos grupos de poesia que participo
http://po-de-poesia.blogspot.com
www.myspace.com/gambiarraprofana
http://ccdonana.blogspot.com
http://gambiarraprofana.blogspot.com
www.arnoldopimentel.recantodasletras.com.br
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